segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Seja consciente, não consuma açúcar escravo


Publicado em 1944 por Eric Williams, “Capitalismo e escravidão” foi o primeiro livro a demonstrar a profunda vinculação entre o nascimento do capitalismo industrial na Europa e a escravização negra nas Américas.

Em um trecho da obra, o autor descreve uma campanha envolvendo o que hoje chamaríamos de “consumo consciente”.

Por um cálculo matemático feito na época, se uma família média inglesa deixasse de consumir açúcar por 21 meses, um negro seria poupado de escravização ou morte.

Para muitos abolicionistas britânicos, o consumidor de açúcar era "o principal motor, a grande causa de toda a horrível injustiça" envolvida na escravidão.

A solução? Substituir o açúcar das Índias Ocidentais pelo que vinha das Índias Orientais. Ou seja, substituir o consumo do produto americano pelo indiano.

Havia até um folheto intitulado "Queixa do escravo negro aos amigos da humanidade". Nele, um negro implorava:

Massa, você que é amigo da liberdade, tenha pena do pobre negro. Eu imploro, compre o açúcar do Oriente, não compre açúcar escravo.

Segundo os promotores da campanha, agindo desse modo, os consumidores estariam minando o sistema escravista da maneira mais segura, fácil e eficaz.

Mas só faltava uma coisa: abolir a escravidão na Índia. E o máximo que a dominação britânica conseguiu, naquele momento, foi propor uma legislação para "melhorar" a escravidão naqueles territórios.

O que realmente estava por trás do apoio abolicionista à produção das Índias Orientais não era apenas a desumanidade da escravidão, mas a crescente falta de rentabilidade do monopólio açucareiro nas Américas.

Se o consumo consciente não abalou o capitalismo quando envolvia o comércio legalizado de escravos, muito menos agora.

A história com tragédia, farsa e fake


Segundo Hegel, a história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa.

Marx utilizou a frase em “O 18 Brumário” tendo como alvo Luís Bonaparte, cuja mediocridade era ainda mais acentuada pela pretensão de ser sucessor de seu tio Napoleão.

Mas em sentido mais geral, Marx utilizou a frase de Hegel para se referir a momentos históricos em que os:

...homens conjuram ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestados os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar-se nessa linguagem emprestada.

Na verdade, são estes momentos que se repetem, não a história. Um exemplo é a recente decretação da intervenção federal no Rio de Janeiro. Não falta quem queira vê-la como reencarnação do golpe de 64.

De um lado, aqueles que esperam uma reedição da ditadura militar para trancafiar e torturar lideranças das “classes perigosas”. Fingem desconhecer, porém, que isto já acontece há muito tempo, e ganhou considerável reforço com intervenções federais semelhantes, decretadas ainda durante os governos petistas.

De outro lado, há quem espere que a reencarnação de 64 acorde uma grande reação popular capaz de reverter a onda conservadora e abrir caminho para um retorno eleitoral da esquerda oficial.

Estes só não parecem lembrar que se a reação popular não veio em 64, quando o golpe foi pura tragédia, dificilmente viria agora, quando se apresenta em trajes pós-carnavalescos.

Acrescente-se a tudo isso a avalanche de versões tragicômicas que tomou as redes virtuais sobre o evento e teremos a mais nova variação da frase de Hegel. A história que já se repetiu como farsa, quase imediatamente, torna-se fake.
http://pilulas-diarias.blogspot.com.br/2018/02/a-historia-com-tragedia-farsa-e-fake.html