quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

A derrota de Bolsonaro não seria necessariamente uma vitória


“Onde os fracos não têm vez” é o título do artigo de Eduardo Matos de Alencar, publicado no início do ano. Admirador de Olavo de Carvalho, o autor é insuspeito ao avaliar que “Bolsonaro tem mais chances de perder estofo quando as peças e engrenagens do sistema político começarem a operar de maneira efetiva”.

São exatamente essas peças e engrenagens o tema principal do texto de Alencar, que trabalhou para várias prefeituras do Nordeste e foi gestor da implantação da “UPP Social” na Rocinha, em 2012.

É dessa experiência que ele retira evidências sobre o funcionamento do varejo da disputa de votos que forma o atacadão conservador da política institucional em um país extremamente desigual. 

Sobre os eleitores mais pobres, por exemplo, ele afirma:

Inúmeras dessas pessoas podem até declarar, num primeiro momento, a preferência por A ou B, mas a verdade é que quando a liderança comunitária, o vereador, o prefeito da cidade ou o deputado da região acionarem os mecanismos para “pedir” votos pelos seus aliados, acho bem difícil acreditar que as pessoas responderão diferentemente do esperado

É esta “capilaridade” que precisa ser dominada pelos que querem ter alguma chance no pesado jogo eleitoral nacional. Um fator tanto mais importante quanto maior a desigualdade, a pobreza, a ausência de serviços públicos. Elementos que jamais faltaram ao País e alimentam o pragmatismo do “rouba, mas faz” há muitas décadas.

O texto também descreve como o PT capitulou a essa lógica suja. E o pior é que não há como discordar. Mas acima de tudo, indica que uma derrota de Bolsonaro não merece necessariamente grandes comemorações.

O novo individualismo já tem alguns séculos


Anthony Elliott é professor de sociologia das universidades South Australia e Keio, no Japão. Em 31/12, publicou artigo na Folha discutindo um novo tipo de individualismo.

Segundo ele, o individualismo atual “nos encoraja a mudar tão completa e tão rapidamente que nossas identidades se tornam descartáveis”.
                                    
Ele cita o filósofo e escritor estadunidense Don DeLillo, para quem:

...o capitalismo mundial gera transformações à velocidade da luz, não só em termos do movimento súbito de fábricas, migrações em massa de trabalhadores e transferências instantâneas de capital líquido, mas em “tudo, da arquitetura ao tempo de lazer, à maneira pela qual as pessoas comem, dormem e sonham”.

Ora, em 1848, o Manifesto Comunista já afirmava que a burguesia “não pode existir sem revolucionar incessantemente os instrumentos de produção, por conseguinte, as relações de produção, e com isso, todas as relações sociais”.

Em relação ao mundo “profissional”, Elliott afirma:

A morte da ideia de uma carreira (uma vida de trabalho) desenvolvida dentro de uma só organização foi interpretada por alguns como sinal de uma nova economia —flexível, móvel, operando em rede. O financista e filantropo internacional George Soros argumenta que transações tomaram o lugar dos relacionamentos na economia moderna.

As transações que tomam o lugar dos relacionamentos identificadas por Soros continuam a movimentar mercadorias, ainda que, atualmente, muitas delas nem existam e circulem por meio de pulsos eletrônicos.

O conceito de “fetichismo da mercadoria” apresentado em “O Capital” diz algo muito parecido. É a relação entre as mercadorias ocupando o lugar da relação entre as pessoas.

Soros, DeLillo e Elliott poderiam dar os devidos créditos a Marx e Engels. 

Até agora, Trump vem perdendo para Churchill


Dias atrás, Trump chamou de “países de merda” o Haiti e nações africanas.

No mesmo período, estreou o filme “O Destino de uma Nação”, que retrata Winston Churchill como herói da liberdade.

O que uma coisa tem a ver com a outra? Vejamos.

Em 11/01, Richard Seymour escreveu na revista “Jacobin” sobre o famoso primeiro-ministro britânico. Segundo o artigo, no final da Segunda Guerra, Churchill afirmou: “Devemos varrê-los, cada um deles, homens, mulheres e crianças. Não deve restar um japonês na face da terra”.

Mas tem mais.

...não admito que um grande mal tenha sido feito aos índios vermelhos da América ou aos negros da Austrália (...) pelo fato de que uma raça mais forte, uma raça superior, (...) invadiu e tomou seu lugar.

Visitando a Itália em 1927, declarou a Mussolini: "Se eu fosse italiano, com certeza estaria a seu lado desde o início para concluir sua luta triunfante contra os apetites e paixões bestiais do leninismo".

Escrevendo sobre suas "relações íntimas e agradáveis” com Mussolini, acrescentou que "no conflito entre fascismo e bolchevismo, não há dúvidas sobre de que lado ficam minha simpatia e convicções".

Mas Churchill não se limitava a proferir barbaridades. Ele autorizou o uso de gás venenoso contra rebeldes que combatiam o domínio britânico no Iraque. Na verdade, já havia ordenado que se fizesse o mesmo contra a Rússia dos bolcheviques.

Um caso de pioneirismo foi a utilização do terrível “agente laranja” contra rebeldes na Malásia. Muito antes que as tropas estadunidenses fizessem o mesmo no Vietnã.

Por enquanto, Trump vem perdendo para Churchill na condição de criminoso racista. Por enquanto...

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Temer diz cumprir lei, mas poderia valorizar salário mínimo se quisesse

O valor passou de R$ 937 para R$ 954 reais – o menor aumento dos últimos 24 anos

Brasil de Fato | Brasília (DF)
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Ouça a matéria:
Segundo cálculos do Dieese, o salário mínimo ideal para sustentar uma família de quatro pessoas seria de mais de R$ 3,7 mil / Tânia Rego/ABr
Este ano o salário mínimo aumentou apenas 17 reais. O valor passou de R$ 937 para R$ 954 – o menor aumento dos últimos 24 anos, diga-se de passagem. Um belo presente de Ano-Novo, hein?!
O presidente golpista Michel Temer justifica que cumpriu a legislação, mas o que ele não diz é que poderia dar um aumento maior se quisesse. É que o espírito da lei é justamente a valorização do salário mínimo.
O Congresso Nacional havia aprovado o orçamento com um valor um pouquinho maior. Mas o governo Temer resolveu baixar ainda mais. Vejam só: num contexto em que os bens de consumo se tornam cada dia mais caros e inacessíveis especialmente para a população de baixa renda, o governo impõe ao trabalhador um aumento que mal faz diferença.
Para se ter uma ideia, segundo os cálculos do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o salário mínimo ideal para sustentar uma família de quatro pessoas seria de mais de R$ 3,7 mil. Um valor bem distante da realidade que o trabalhador brasileiro tem que enfrentar mês a mês.
Temer diz – e a grande mídia reforça o sermão – que o país estaria sem dinheiro e precisando reduzir custos, mas, ao mesmo tempo, o governo continua patrocinando barganhas para negociar votos no Congresso e aprovar medidas que retiram mais direitos dos trabalhadores. Ou seja, o que falta para promover um aumento real e mais justo no salário mínimo é vontade política.
Vale reforçar que o valor do salário mínimo é algo que diz respeito à dignidade do trabalhador e também à economia do país, porque é ele que tem a capacidade de gerar – ou não – um círculo virtuoso de consumo e de renda. No final das contas, a situação atual é esta: o gás de cozinha está mais caro, a conta de luz também, mas o bolso continua sem dar conta das nossas necessidades.
Edição: Camila Maciel
https://www.brasildefato.com.br/2018/01/04/analise-or-temer-diz-cumprir-lei-mas-poderia-valorizar-salario-minimo-se-quisesse/

Para onde caminha o Brasil?

“Somos governados por grupos políticos altamente suspeitos de corrupção e cujo presidente tem 6% de apoio da população”

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)
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Paulo Bretas é presidente do Conselho Regional de Economia de Minas Gerais / Reprodução
Chegamos a mais um final de ano. No mundo, comemora-se a chegada de 2018. No Brasil, seguimos sem grandes motivos para celebrar, a julgar pelo que vem indicando as estatísticas sociais: a situação dos trabalhadores e a lenta retomada da economia, em moldes bastante injustos para com os mais vulneráveis.
Somos mais de 205 milhões de brasileiros e de brasileiras. Estamos envelhecendo, não só porque a população está vivendo mais, mas também porque a população de jovens (0 a 9 anos) está se reduzindo. Aos poucos, vamos perdendo o bônus demográfico porque não estamos abrindo possibilidades de qualificação e emprego para nossos jovens.
As últimas informações sociais vindas do IBGE, no campo da educação, não são nada alentadoras. Somos 11,8 milhões de analfabetos, sem contar os chamados analfabetos funcionais. Entre pessoas pretas ou pardas, a taxa de analfabetismo é o dobro.
Somos uma população de baixos níveis educacionais e de mão de obra de baixa qualificação. Segundo dados da Pnad Contínua, metade da população brasileira de 25 anos ou mais não completou o ensino médio, o equivalente a 66,3 milhões de pessoas. Outro dado estarrecedor: 51% da população de 25 anos ou mais de idade estavam concentradas nos níveis de instrução até o ensino fundamental completo ou equivalente. O número médio de anos de estudo das pessoas de 25 anos ou mais de idade foi para as mulheres 8,2 anos e, para os homens, 7,8 anos. Os brancos com 9 anos de estudos em média têm mais tempo de estudos do que pretos ou pardos, com 7,1 anos.
O número de jovens de 15 a 29 anos que não estudavam nem trabalhavam em 2016 cresceu no país, chegando a 22,5% da população dessa faixa etária. Que triste futuro nos aguarda?
O documento “Síntese de Indicadores Sociais 2017” constatou que o Brasil tinha 52,2 milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza em 2016, o que representa um quarto (25,4%) da população. Mulheres pretas ou pardas sem cônjuge e com filho eram 7,389 milhões de pessoas em 2016, das quais 64% viviam abaixo da linha da pobreza. Já entre homens brancos, 43,13 milhões de habitantes, apenas 15,3% eram pobres.
Crise econômica
O governo federal se encontra numa situação fiscal extremamente difícil. Há uma forte probabilidade de não ser cumprido o teto de gastos no futuro próximo (2019 em diante). Também há o risco do governo entrar em “shutdown”, ou seja, parar de funcionar por absoluta falta de recursos. Um cenário nebuloso econômico se desenha para o próximo presidente da República, seja ele quem for.
A relação da dívida pública sobre o PIB (Produto Interno Bruto) vai rapidamente se aproximando dos 80%. E se o mercado duvidar da capacidade do governo de pagar esta dívida? Estados membros e municípios seguem na mesma situação: Quebrados! A continuar o atual estado de coisas, os recursos do governo federal só conseguirão pagar a folha de salários.
A massa salarial e o consumo das famílias, ambas variáveis intimamente ligadas às condições do mercado de trabalho, respondem por cerca de 60% da receita bruta do governo central. Como o governo vem com uma reforma trabalhista que reduzirá a renda dos trabalhadores, sentirá novamente as consequências na queda de arrecadação. Apenas 13,5 % dos impostos arrecadados vêm dos lucros. Sem falar no volume de renúncias fiscais, que é de aproximadamente R$ 285 bilhões, em torno de 4,5% do PIB. Contribuindo para a redução de receitas. Temos um sistema tributário injusto e regressivo. Os benefícios que o governo concede para diferentes setores da economia, uma espécie de “bolsa empresário”, custam cada vez mais caro na hora de financiar as aposentadorias dos trabalhadores do setor privado. O déficit da Previdência Social seria 40% menor sem as renúncias fiscais, segundo levantamento do Ministério da Fazenda.
No governo Temer, o Brasil teve o menor nível de investimentos públicos de todos os tempos, segundo a Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado Federal: 2% do PIB entre junho de 2016 e junho deste ano. Não há como cortar mais os gastos, daí cortam-se os investimentos públicos. O orçamento federal é muito amarrado e as chamadas despesas discricionárias, aquelas que o governo pode cortar, representam apenas 9% do total. Como crescer com pujança e justiça social sem a ajuda dos investimentos públicos? Vale um alerta: impostos poderão ser elevados no novo ano que se inicia.
Futuro difícil
O governo que assumir em 2019 terá que decidir como vai cumprir o limite imposto pela lei do teto de gastos, ou eliminá-la com uma nova lei que libere o congelamento das despesas públicas. A lei do teto de gastos me parece um apartamento em chamas e aí o ministro Meirelles tranca as portas para que ninguém saia. O que resta aos moradores do apartamento Brasil? Ou apagam o incêndio das contas públicas, ou morrem queimados. Já sinto cheiro de queimado e não são os rentistas e banqueiros, que vivem alegremente de especulação financeira, que estão se queimando.
Estamos numa situação fiscal extremamente difícil. Assim como por absoluta falta de recursos e dívidas que vão se acumulando as Universidades Federais e os Institutos Tecnológicos estão ameaçados de parar suas atividades, total ou parcialmente. Vivemos num país incapaz de seguir produzindo ciência e tecnologia. Incapaz de aumentar a produtividade do trabalho pela inovação tecnológica.
A situação dos trabalhadores não esta nada boa. Com o início da implantação da Reforma Trabalhista, aprovada pelo governo Temer, nós viveremos o uso indiscriminado de contratos de trabalho a prazo, uso de trabalho a tempo parcial, a terceirização, o trabalho intermitente, muito subemprego, a sobrequalificação da mão de obra e o ataque à representação sindical. Foi isto que aconteceu no mercado de trabalho espanhol na segunda década do século XXI. Parece que caberá ao povo pobre e trabalhador o ônus dos ajustes da economia.
Em maio de 2017, a ONU fez um exame das políticas públicas do Brasil voltadas para os Direitos Humanos e criticou as reformas do governo Temer, alertando que o congelamento de gastos públicos é “incompatível” com os compromissos internacionais assumidos pelo país. A ONU criticou especialmente a situação de superlotação e as más condições dos presídios brasileiros, masmorras medievais que não recuperam ninguém, criticou também a violência policial e a precarização das condições sociais do país.
É assustador pensar que somos governados por grupos políticos altamente suspeitos de corrupção e cujo presidente tem tão somente 6% de apoio da população, segundo as últimas pesquisas do IBOPE. Mais assustador ainda é pensar que ao seu lado, dando-lhe total respaldo político, está um Congresso desacreditado, que foi legitimamente eleito pelo povo, mas que se perdeu em meio a uma crise política, cujas raízes se encontram atoladas na lama da corrupção, ao som de delações premiadas. Poucos parlamentares escapam das denúncias de caixa 2.
Evidentemente, nem tudo são desgraças, a inflação está controlada e os juros começam a abaixar, ainda que na ponta seja difícil para o consumidor ter esta benesse por causa dos altos spreads bancários e de seu alto nível de concentração. Também a agricultura e pecuária vêm mantendo elevados níveis de crescimento, mas que não promete a mesma pujança em 2018. A balança comercial vai bem e as reservas internacionais seguem próximas de atingir os US$ 400 bilhões. A recessão parece estar encerrada, mas ainda falta muito para eliminarmos um desemprego superior a 12%, representando mais de 12 milhões de trabalhadores fora do mercado de trabalho.
Em suma, regredimos muito, temos um país socialmente doente, com um Estado em estado terminal. Um judiciário que se politizou e que segue sem fazer justiça, nem mesmo serve para trazer segurança para a sociedade. De maneira egoísta e quase irresponsável, avançam de maneira corporativista sobre os recursos públicos, preservando altos salários e vantagens. Teremos certamente um processo eleitoral bastante disputado com muitas abstenções, votos brancos e nulos e com boas chances para a vitória de candidatos de oposição ao atual governo, populistas ou não. Este é o Brasil que entra em 2018.
Edição: Frederico Rick
https://www.brasildefato.com.br/2018/01/05/para-onde-caminha-o-brasil/

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Tiros pela culatra

 

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O doutor Givanildo abriu o exemplar de "Tiros pela culatra", uma coletânea de contos de diversos autores. Abriu numa página qualquer, calhou ser a página inicial do conto intitulado "O semeador de ventos". Leu a epígrafe: "Celui qui sème le vent récolte la tempête".
por Fernando Soares Campos
O telefone tocou. Atendeu. Era o Lúcio. Cumprimentou-o com um "oi", sem disfarçar certo enfado. Súbito, olhos arregalados, levantou-se. Tudo indicava que o Lúcio estava lhe passando uma informação bombástica.
A mulher entrou na sala e estranhou o comportamento do marido ao telefone. Ele aparentava estar entre pasmo e eufórico, caminhava em círculo e repetia a pequenos intervalos: "Não! Não! Nããão!". Ela fez sinais, acenou, piscou, sussurrou: "Quem é?", "O que está acontecendo?". Ele apenas repetia: "Não! Não! Nããão!". A mulher impacientou-se, bateu palmas para chamar sua atenção. Tentou umas batidinhas com o pé. Nada, quer dizer, "Não!", era só o que ele dizia ao seu interlocutor.

- E agora dá pra você me explicar o que está acontecendo?! - exigiu ela.
Ela desistiu, resolveu esperar sentada. Ele mudou sua monossilábica comunicação para "Sim! Sim! Sei!". Impaciente, ela levantou-se bruscamente e perguntou: "Afinal, é sim ou não?!". Ele colocou o indicador entre os lábios e fez "psiu!". Ela já estava disposta a lhe tomar o telefone e perguntar ao outro o que estava acontecendo. Ele agradeceu pelas informações e despediu-se. 
- Você não vai acreditar, querida!
- Vai logo, desembucha, homem! Que aconteceu de tão grave?!
- Grave? Ah, grave, sim! Mas não para nós. Eles que fiquem com a gravidade da questão. A nós só resta comemorar mais um gol de placa. 
- Para com isso, homem! Conta logo essa história, senão eu tenho um troço!
- Então, sente-se pra não cair de costas. 
 A mulher sentou-se. Ele permanecia com o livro na mão, falava gesticulando, entusiasmado:
- O Jonas confessou!
- Jonas?!
- Sim, o Jonas!
- Quem é o Jonas?!
- O quê?! Você não sabe quem é o Jonas?!
- O único Jonas que conheço não seria capaz de confessar nada.
- Mas é esse mesmo, o contador, o guarda-livros da C&R Ltda.
- Mas o que foi que ele confessou? Claro que não deve ter confessado que é ele quem consegue as notas frias para a venda das cargas roubadas receptadas pela C&R.
- Não, isso não, o cara é bandido, mas não é louco.
- Bom, também não deve ter confessado que foi ele próprio quem matou a primeira mulher e mandou matar a segunda...
- Certamente não. Pode-se acusar o Jonas de tudo, mas ele não é maluco! 
- Já sei! Confessou que foi o autor intelectual do sequestro do dono daquela rede de supermercado...
- Querida, o depoimento foi na Polícia Federal, e eu já disse que o cara tem juízo!
- Mas o que de tão grave ele confessou?
O doutor Givanildo esforçou-se para parecer sério, sisudo, mas exibia um estranho sorriso que lhe emprestava o aspecto de idiota, o que ele certamente não era.
- O Jonas, em seu depoimento, confessou, com todas as letras, que...
O telefone tocou. Ambos olharam para o aparelho trinando insistente. Ela colocou a mão em cima do telefone e, decidida, falou:
- Você só vai atender quando terminar de me contar o que o Jonas confessou.
- Espere um pouco, meu bem, deve ser o Lúcio. Ele ficou de me retornar informando o que aconteceu com o Jonas. Se vai ficar preso ou responder em liberdade.
Ela cedeu. Num salto, ele pegou o aparelho.
- Alô, Lúcio, e aí, o que aconteceu com o Jonas?!
- Doutor Givanildo?
- Sim...
- É o Jonas. 
- Jonas?! Mas você... é que... Bem, o que está acontecendo?! 
- O Lúcio não lhe contou? 
- Sim, ele me falou que você foi interrogado pela Polícia Federal. Contou que você confessou que a C&R deu dinheiro, por fora, pra campanha daquele deputado estadual, o achacador. Complicou a vida daquele malandro. Mas não me contou os detalhes...
- Nem poderia.
- Como assim?!
- Porque os detalhes virão depois. 
- Você vai depor novamente?
- Não, não vou. Estou me referindo às investigações. Os detalhes, sem dúvida, serão revelados durante o processo investigatório. 
A mulher se levantou, aproximou-se do marido e encostou o ouvido no fone. Ele não reclamou, continuou falando:
- Que detalhes?
- Pediram a quebra do sigilo bancário do deputado.
- E daí?
- O problema é o cheque, doutor Givanildo, o cheque. Sei que eles vão chegar ao cheque.
- De que cheque você está falando?!
- Bem, doutor Givanildo, o senhor queira me desculpar...
- Desculpar de quê?! Dá pra explicar melhor?!
- Acontece que só agora eu me lembrei.
- Lembrou-se do quê?
- Me lembrei do cheque que o senhor deixou pra pagar o aluguel do galpão da C&R.
- O que tem uma coisa a ver com a outra?
- Acontece que eu dei aquele cheque para o cara na época da campanha. Era uma emergência, doutor.
O doutor Givanildo amarelou, sentiu as pernas bambas, vertigem, um friozinho na barriga. Berrou: 
- Você está maluco?! Endoidou?! Onde já se viu usar cheque numa transação dessas?! Isso é coisa de louco!
- Desculpe, doutor Givanildo, eu nunca pensei que fosse dar no que deu...
- Pensar? Pensar?! Você não deve ter essa faculdade, seu estúpido! Você é louco! Louco, entendeu?! Maluco! Pirado! Doido! Demente! - desligou.
Pasma, a mulher olhava para o marido, apenas acompanhava sua inquieta movimentação pela sala. 
Transtornado, o doutor Givanildo arriou-se no sofá como um fardo atirado a um canto. Não sabia o que fazer. Abriu o livro novamente na página do conto "O semeador de ventos" e releu a epígrafe: "Celui qui sème le vent récolte la tempête". 
- Que diabos isso quer dizer?! 

É fácil dominar um país vira lata, como já sabiam os ingleses.


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sanguessugado do GGN

André Araújo

A Embraer, os vira-latas e o chicote do inglês

O Império Britânico governou uma quarta parte das terras deste planeta. O Império não precisava de muita tropa para manter os controles sobre tão vastos territórios.

Na maior das colônias o “Raj”, que incluía o que é hoje a Índia, o Paquistão e Bangladesh, menos de 10 mil ingleses bastavam. Qual o segredo?

Os ingleses eram inteligentes e terceirizavam os capatazes de suas terras, os próprios indianos serviam ao Império Britânico como soldados, selecionavam tribos guerreiras como os Sikhss e os Gurkas  que em nome do Soberano em Londres usavam o chicote sobre os outros indianos.

No Brasil de hoje há tropas disponíveis para servir de guarda ao interesse dos herdeiros dos ingleses e seus sucessores imperiais, os americanos que encantam os brasileiros.

A proposta de compra da EMBRAER pela Boeing trouxe a luz do dia essa tropa vira lata que serve aos interesses estrangeiros no Brasil com o maior prazer. Na GLOBONEWS Sardenberg e Teco, codinome de Luís Gustavo Medina, comentaristas econômicos da linha “tudo pelo mercado”, habituais porta vozes do pensamento neoliberal que vem da Casa das Garças,  soltaram rojões de alegria com a hipótese da BOEING comprar a EMBRAER. Disseram que o Brasil deveria  se sentir lisonjeado pela BOEING voltar seus olhos para o Brasil, “ é uma prova de confiança no Pais”, disseram sôfregos de alegria, “olha como gostam de nós”.

Disseram que agora a EMBRAER vai poder vender muito mais aviões para o exterior pelas mãos da BOEING. Demonstraram ai o ápice do desconhecimento. Muitos países compram aviões da EMBRAER exatamente porque ela é brasileira e NÃO comprariam se ela fosse americana.  Os aviões Tucanos de treinamento militar são comprados por países que não comprariam  esse tipo de equipamento se o fornecedor for americano. Os fabricantes americanos NÃO transferem tecnologia, não abrem os códigos fonte da eletrônica embarcada, não fornecem todos os desenhos, eles querem deixar o comprador AMARRADO aos controles tecnológicos e dependentes eternamente do fornecedor, é tradicional politica dos EUA.

Sardenberg e Teco não tem a menor ideia do que significa uma grande multinacional comprar uma empresa de pais emergente. Tive essa experiência em 1974, quando uma empresa de bens de capital da família foi vendida a um dos maiores conglomerados americanos da área, uma empresa cem vezes maior do que a nossa quando foi comprada.

Em seis meses a empresa estava COMPLETAMENTE mudada, da cabeça aos pés, mudaram os processos de controle, de orçamento, de relações trabalhistas, quem quisesse ficar precisava assumir a CULTURA da empresa matriz, completamente diferente da empresa nacional.

É isso o que significa uma compra da EMBRAER pela BOEING, aqui vai ser uma divisão da empresa mãe, pode até desaparecer, como a nossa vendida em 1974 desapareceu em 1985.

A BOEING comprou nos últimos anos SETE grandes empresas aeronáuticas: De Havilland Australia, Hugues Aircraft, McDonnel Douglas, North American Aviation, Piasecki Helicopter, RocketDyne e Stearman Aircraft. Todas desapareceram, foram absorvidas pela Boeing, não existem mais como empresas, é o sistema BOEING de fusões e aquisições.

Há pouco tempo a EMBRAER foi acusada de corrupção na Republica Dominicana e foi processada pelo Departamento de Justiça, a EMBRAER acabou fechando acordo por US$180 milhões de multa paga por esse processo, que nada tinha a ver com os EUA, mas lá eles acham que tem jurisdição sobre o mundo, esse processo começou no Brasil e foi parar nos EUA.

Por conta desse acordo a EMBRAER teve que aceitar ser monitorada por dois fiscais do governo americano, os fiscais ficam dentro de seus escritórios no Brasil.

A postura de Sardenberg,Teco e outros do mesmo naipe é de COMPLEXO DE INFERIORIDADE.

Somos tão ruins que é melhor um estrangeiro nos comprar, aliás é uma HONRA o estrangeiro se interessar por nós, como deixaram claro Sardenberg e Teco, felizes pelo aceno da Boeing.

Foi o orgulho nacional profundo que fez a Alemanha, a Inglaterra, a França, a Rússia serem potencias industriais. Orgulho de seus produtos que representam o nível civilizatório do País. A Embraer é uma criação nossa, tecnologia nossa, é uma derivação da FORÇA AEREA BRASILEIRA. Vende-la não é apenas um negocio financeiro, como acham Sardenberg e Teco, é  abrir mão de um sucesso bem brasileiro, saído de cérebros brasileiros.

Mas lamentavelmente muitos brasileiros são assim, ACHAM o Brasil um lixo. Em alguns points dos Jardins em São Paulo (posso listar) vê-se pais brasileiríssimos falando em inglês com seus filhos pequenos, acham isso lindo, querem ser estrangeiros em seu próprio Pais, que desprezam, acham que tudo é lindo nos EUA, sem ver as mazelas desse País.


 É fácil dominar um país vira lata, como já sabiam os ingleses.

Uberização do desespero, luta de classes, disputa hegemônica


Henry Ford ficou conhecido por introduzir a produção em série. Mas poucos sabem que para trabalhar na Ford era preciso comprovar adesão a certos valores como fidelidade conjugal, estabilidade familiar e emocional, repulsa ao álcool e à vida boêmia, apego à religião e patriotismo.

Mais sutil, o toyotismo se apropriou da capacidade flexível da produção artesanal. Passou a exigir de seus “colaboradores” capacidade de cooperação, consenso, participação, valorização dos grupos informais etc.

Já na era do Uber, as empresas inovam a partir da chamada economia compartilhada ou “economia do bico”. Nela, borram-se as fronteiras “entre consumo e trabalho, entre o que é trabalho e o que não é, entre trabalhador e consumidor, entre o trabalho e o bico, entre trabalhador-empreendedor”.

A análise acima é um resumo grosseiro de um artigo que vale a leitura. Trata-se de “Luta de classes na era do Uber”, de Marco Antonio Gonsales de Oliveira, Rodrigo Bombonati de Souza Moraes e Rogério de Souza. É dele também a seguinte passagem:

As empresas da economia do compartilhamento navegam nas oportunidades que a sociedade do trabalho, em crise, oferece: consumidores em busca de baixo preço e trabalhadores em situação de desespero.

Sendo que “consumidores em busca de baixo preço” e “trabalhadores em situação de desespero” muitas vezes são as mesmas pessoas.

Mas tudo isso fica escondido sob a aparência de “eficiência”, “versatilidade”, e até “sustentabilidade ecológica”.

Ou seja, desde a triagem moralista de Ford, passando pela apropriação do artesanato pelo toyotismo até a uberização do desespero, é de luta de classes que se trata. Mas também de luta ideológica. Disputa de hegemonia.

http://pilulas-diarias.blogspot.com.br/2017/12/uberizacao-do-desespero-luta-de-classes.html

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Corporações vorazes



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É verdade. O grande problema do Brasil são as corporações. Elas querem tudo, nada cedem e comportam-se com voracidade. Agem em bloco.  Parasitam tudo. Só pensam nos próprios interesses. Condicionam governos, pressionam a mídia, paralisam setores inteiros quando seus privilégios são ameaçados. Afetam decisivamente as políticas públicas. Controlam “de forma estruturada e hierárquica uma cadeia produtiva” gerando “um grande poder econômico, político e cultural”. Desequilibram a democracia. As corporações mandam em nós. Manipuladas por muito poucos, representam o “principal núcleo de poder”. Sugam tudo e todos. Não perdoam, devoram.

Os governos estão reféns das corporações.
O economista Ladislau Dowbor, professor da PUC-SP, no seu livro “A era do capital improdutivo”, assina as frases citadas entre aspas acima. Ele mostra, com base em pesquisas recentes, que menos de 1% das empresas globais controla cerca de 40% do mercado internacional. As corporações mais vorazes são as empresariais. Apenas 737 players (corporações adoram essa palavra) controlam cerca de 80% do capital de todas as empresas mundiais. Corporações empresariais financiam campanhas políticas para impor reformas trabalhistas e previdenciárias. Nos Estados Unidos, desde 2010, elas foram liberadas para gastar mais com política. É assim que mandam no mundo e em nós.
Dowbor revela o que está em jogo: “Quando há milhões de empresas, há concorrência real. Ninguém consegue ‘fazer’ o mercado ditar os preços e muito menos ditar o uso dos recursos públicos”. Quando as corporações empresariais dominam tudo, até o mercado se dobra. Os governos viram fantoches. O eleitor não passa de um iludido: “Nesta articulação em rede, com um número tão diminuto de pessoas no topo, não há nada que não se resolva no campo de golfe no fim de semana”. Os dados são do ETH (Instituto Federal Suíço de Pesquisas Tecnológicas). A corporação empresarial financia políticos e patrocina a mídia para centrar fogo nos sindicatos e nos funcionários públicos.
O corporativismo que asfixia, contudo, matando quase toda possibilidade de eliminação da desigualdade global, é o empresarial. Dowbor dá o caminho interpretativo: “O resultado é uma dupla dinâmica de intervenção organizada para a proteção dos interesses sistêmicos, resultando em corporativismo poderoso, e o caos que trava qualquer organização sistêmica racional. O gigante corporativo, que abraça muito mais recursos do que sua capacidade de gestão, é demasiado fechado e articulado para ser regulado por mecanismos de mercado, e poderoso demais para ser regulado por governos eleitos”. As corporações financeiras impedem investimentos no setor produtivo. Vivem numa bolha. Compram consciências e vendem distorções simplistas.
Precisamos lembrar todos os dias: as corporações nos ameaçam.
Elas não pensam em bem-estar social. Preocupam-se exclusivamente com seus lucros. Algumas operam mais nos computadores, lidando com transferências e apostas virtuais, do que com realidades palpáveis e produtivas. Outras investem em desregulamentação e precarização quando lhes é fundamental. Compram leis e legisladores. Vendem fake-news, compram consciências.
Cuidado com as corporações!

Distribuição de riqueza, só com catástrofe


Recentemente, foram divulgados estudos que mostram que é falsa a ideia de que houve distribuição de renda na última década no Brasil.
 
Um dos que já sabiam disso é Pedro Herculano de Souza, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Em entrevista concedida ao portal EPSJV/Fiocruz, ele afirmou:

O período em que fomos menos desiguais foi entre 1942 e 1963, quando o 1% mais rico chegou a abocanhar ‘apenas’ 17% da renda total. Isso foi uma exceção, já que ao longo desses anos o centésimo mais rico deteve entre 20% e 25% de todos os rendimentos brasileiros fatia que, desde 2006, está na casa dos 23%...

Mas a entrevista tem outra passagem interessante:

É importante lembrar que a maior parte do mundo era muito desigual nos séculos 18 e 19. Os países onde realmente a coisa mudou relativamente em pouco tempo foram aqueles que passaram por catástrofes muito grandes. Notadamente, a Primeira Guerra Mundial, a grande depressão de 1929 e a Segunda Guerra mudaram radicalmente a distribuição de renda em vários países ricos. Países que, no início do século 20, não eram tão diferentes do Brasil mas que, depois da Segunda Guerra, já eram completamente diferentes.

Nosso grande desafio seria inventar um jeito pacífico, tranquilo, sem catástrofe, de sermos o primeiro país a sair desse nível de desigualdade e chegar a um nível civilizado. Eu não conheço exemplos assim. Em geral, acontece alguma coisa muito errada que obriga uma distribuição de perdas. A necessidade acaba forçando regras que impõem uma redistribuição e um conjunto de políticas que nasce junto.

Assim caminha a humanidade. Sob o capitalismo.